A importância do controle da dor
Antigamente, acreditava-se que sentir muita dor após uma operação cirúrgica era inevitável e fazia parte do processo. Hoje, sabemos que a dor intensa e não tratada prejudica o corpo em vários aspectos: ela aumenta o estresse metabólico, eleva os níveis de pressão arterial e frequência cardíaca, e dificulta a movimentação precoce.
Além disso, quando o paciente sente dor ao respirar fundo, ele tende a fazer respirações curtas, o que pode levar a pequenas áreas colapsadas nos pulmões (atelectasias) e infecções pulmonares. Por isso, controlar a dor é um elemento de segurança médica.
O que é Analgesia Multimodal?
A técnica padrão-ouro da anestesiologia moderna para lidar com a dor cirúrgica é a **analgesia multimodal**. Em vez de utilizar uma única medicação potente (como um derivado de morfina) em doses altas — o que causa muitos efeitos colaterais como náuseas, vômitos, tonturas e intestino preso —, combinamos diferentes medicamentos que agem em locais distintos do sistema nervoso.
Geralmente, associamos analgésicos comuns, anti-inflamatórios e, se necessário, doses baixas de opioides. Dessa forma, os medicamentos somam forças, e o paciente obtém um excelente controle da dor com poucos ou nenhum efeito indesejado.
Técnicas Regionais e Bloqueios Nervosos
Uma das maiores aliadas do controle da dor no pós-operatório é a anestesia regional. O anestesiologista pode realizar **bloqueios periféricos** guiados por ultrassom antes ou após a cirurgia.
Ao injetar anestésicos locais ao redor de nervos específicos que levam a sensibilidade para a área operada (como na parede do abdome em cirurgias de vesícula/hérnia, ou no braço em cirurgias ortopédicas), a região fica dormente e protegida contra a dor por muitas horas (às vezes de 12 a 24 horas), permitindo um despertar extremamente confortável.
Expectativas Realistas de Recuperação
É importante ter expectativas realistas. Algum nível de desconforto na região da ferida operatória é esperado e normal nas primeiras 48 a 72 horas devido ao processo inflamatório de cicatrização do próprio corpo.
O objetivo principal da equipe médica não é necessariamente garantir dor zero absoluta a cada segundo, mas sim manter a dor em um **nível leve e tolerável**, de modo que o paciente consiga dormir bem, alimentar-se, tossir, respirar fundo e levantar da cama para caminhar.
Segurança no Uso de Medicamentos
Ao receber alta hospitalar, siga com atenção as orientações da receita médica. * Tome os medicamentos de **horário fixo** (prescritos para evitar que a dor apareça) rigorosamente nos horários certos, mesmo se não estiver sentindo dor no momento. * Deixe as medicações de "resgate" apenas para momentos em que a dor ultrapassar os níveis toleráveis. * **Evite a automedicação.** Nunca dobre doses de analgésicos ou tome remédios extras por conta própria, pois isso pode sobrecarregar a função dos rins e do fígado.
Dicas para um pós-operatório mais confortável:
- Tome os medicamentos de horário conforme a receita para manter um nível estável no sangue.
- Comunique à equipe do hospital se a dor estiver aumentando, antes que ela fique muito forte.
- Realize fisioterapia respiratória ou exercícios de respiração profunda indicados pela equipe.
- Tente mudar de posição ou caminhar levemente assim que for liberado pelo cirurgião.
- Evite o uso de analgésicos fortes (opioides) por períodos mais longos do que o prescrito na alta.
Referências
- Sociedade Brasileira de Anestesiologia. Anestesia: o que você precisa saber?
- Organização Mundial da Saúde. Safe surgery .